Abra as pernas, feche a boca e tente nao morrer – como ser uma jovem mulher em SP

Você possui o escritório de advocacia mais influente do país. Seus jovens sócios, mulheres e homens com menos de 40 anos que se acham os donos de Sao Paulo e ostentam salários mensais acima de R$ 100 mil, decidem brincar com a vida e autoestima de uma menina de 21 anos começando a carreira como estagiária na empresa.

O combinado é sacanear a menina, certos da impunidade. Domínio dos meandros legais que fazem os algozes terem a certeza da impunidade. O ônus da prova ficará todo com a vítima.

Você é informado sobre o crime (apesar de seus jovens sócios e demais advogados influentes nao olharem essa questao através do mesmo prisma moral dos pobres mortais) e aciona o departamento de gerenciamento de crise para preparar uma açao de acobertamento, caso alguma denúncia seja feita. O primeiro passo é escrutinar a vida sexual da vítima e catalogar qualquer “desvio de conduta”. Prepare um rol de testemunhas pagas a peso de ouro. Também prepare a compra do silêncio da vítima, ameaçando-a de ter a carreira encerrada em qualquer instituiçao de peso caso leve adiante a vontade de fazer justiça.

Enquanto isso os jovens sócios se regozijam do crime perfeito, da arte de terem sacaneado a novata. Provavelmente algumas das sócias, ex-estagiárias, também estao rindo. Nao é uma questao de gênero. É uma questao de poder.

Ao mesmo tempo que comemoram a impunidade, os jovens sócios ainda estao eufóricos por serem os responsáveis pelo escritório ter recebido o prêmio de Ëscritório do Ano no Brasil, pela consagrada publicaçao International Financial Law Review. Além de serem jovens e donos do mundo, agora o bônus será polpudo.

Mas a vítima nao suporta a pressao. Decide pelo suicídio, em um dos bairros mais nobres da capital.

Merda no ventilador. Departamento de gestao de crise pesa a mao. Quem der prosseguimento na apuraçao pode perder alguns de seus maiores anunciantes. MSM fica calada. Alguns delegados também.

A vítima morreu 3 vezes – no ato da agressao, na impossibilidade de obter justiça e na destruiçao de sua imagem pública.

O escritório fará de tudo para manter a blindagem em seus jovens sócios criminosos e assassinos. Afinal, eles sao a fonte de prosperidade do negócio, com sua agressividade e falta de ética. Estao ali para vencer. Para atropelarem os fracos que nao aguentam os ritos de passagem para o mundo do poder sem limites, no qual uma jovem mulher nao passa de mero brinquedo descartável.

Afinal, a temporada de contrataçao de novos estagiários já está aberta. E elas vao continuar correndo atrás do sonho.

Nao é um livro de Scott Turow. Nao teremos um herói para desvendar esse crime e fazer justiça. Vai tudo ser varrido para debaixo do tapete.

Nao existe nada para ser visto aqui! Vao lamentar a morte da universitária na India. Vao, vao, seus pobres!

É Sao Paulo, 30 de dezembro de 2012.

Que merda.

Feliz 2013.

Por Felipe B

Imagem –  Modigliani, jovem mulher de olhos azuis, 1917

Texto publicado originalmente aqui