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Marinho | Mas foi quando mesmo que tudo isso começou a mudar?

11:09 Minha avó, que está com 95 anos, vem aos poucos se desfazendo de suas coisas. Um relógio de mesa aqui, um enfeite de casa acolá, jóias, talheres e copos, todos esses objetos foram sendo presenteados. O melhor é que cada um é acompanhado de uma longa história sobre sua origem, usos e donos. O desfecho de cada narrativa é sempre o mesmo - isso é coisa de qualidade, durou esse tempo todo e agora será de vocês. 05/02 Luiz Alberto Marinho

Eu, que nunca consegui nem explicar direito como funciona o fax, nao me atrevo a patrocinar a desilusao que provocaria nela a notícia de que hoje pouca gente liga para as coisas velhas, mesmo as que têm lindas histórias. Tampouco pretendo avisá-la de que durabilidade, atributo essencial em sua época, atualmente vem lá embaixo no ranking das características mais apreciadas pelos consumidores. 05/02 Luiz Alberto Marinho

Outro dia mesmo me peguei tentando lembrar quando e onde isso tudo começou a mudar. Nao consegui encontrar um marco zero, o Dia D dessa reviravolta no gosto das pessoas. O mais provável é que o consenso sobre o que é valor no século 21 tenha sido cozinhado em fogo brando ao longo de muitos anos. Meu pensamento seguinte foi para as outras mudanças em curso. O que mais vai sair desse forno comportamental? 05/02 Luiz Alberto Marinho

Artigo publicado 1 mês atrás na Ad Age por Teressa Iezzi, editora da Creativity, dá uma dica. Além de ser marcada pelo imediatismo e pelo consumo descartável, nossa sociedade pode também estar caminhando apressada na direçao do completo isolamento entre as diversas tribos do planeta. Ela argumenta que a segmentaçao de mercado radical que presenciamos hoje, reunindo grupos cada vez menores em torno de gostos e hábitos bem específicos, pode ser a ponta do iceberg de um problema maior, capaz de arruinar o pensamento coletivo global. Afinal, além de determinar as marcas que consumimos, esse fenômeno também se aplica a comunicaçao que a gente faz e recebe. O texto da Teressa aqui defende ainda a idéia de que, ao restringir o conhecimento apenas as nossas áreas de interesse, estaríamos estreitando nossa visao de mundo. A consequência seria a inviabilidade do debate, pelo absoluto desinteresse em conhecer outras realidades e pontos de vista. 05/02 Luiz Alberto Marinho

Será que o agravamento das manifestaçoes de intolerância - étnicas, religiosas e sexuais - e o alargamento dos abismos entre ricos e pobres, direita e esquerda, oriente e ocidente confirmariam essa tese? De fato, fomos obrigados a tomar algumas providências para gerenciar a enorme quantidade de decisoes que se apresentam todos os dias. Pré-selecionamos marcas autorizadas a fazer contato conosco, definimos assuntos prioritários e escolhemos os veículos responsáveis por intermediar informaçao e nos explicar o que acontece no mundo lá fora, sempre com base em critérios de identificaçao. O resultado é que acabamos recebendo notícias e opinioes que apenas reforçam nossos pontos de vista e quase nunca alargam nossos horizontes. Assim, fica mais difícil olhar para fora, aceitar as diferenças e mudar de opiniao. 05/02 Luiz Alberto Marinho

Em resumo, estaríamos aprisionados, sem perceber, em nossos guetos. A ausência de pontes entre as diferentes culturas produziria ao mesmo tempo uma nova situaçao de mercado, com a qual as marcas precisariam trabalhar, e uma ameaça a convivência civilizada entre as pessoas, com a qual precisaríamos todos aprender a lidar. Todas do Marinho no Blue Bus, escolha uma na lista entre as opçoes aqui. 05/02 Luiz Alberto Marinho

O Marinho escreve no Blue Bus as 2as, 4as e 6as. E está na Bandnews FM todos os dias as 11:17.


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